Decifrando os nomes científicos
Este é o oitavo e último de uma série de oito artigos dedicados à explicação dos nomes científicos das aves
portuguesas. Apresentam-se diversos nomes que fazem referência à alimentação das aves ou a aspectos do seu
comportamento e terminamos com algumas curiosidades.

Alimentação
Algumas aves têm uma dieta muito específica e esse facto é usado no respectivo nome científico. Um dos exemplos
mais flagrantes é o do
búteo-vespeiro (ou falcão-abelheiro). O nome científico desta espécie é Pernis apivorus, sendo
que o seu nome específico, proveniente do latim, é uma aglutinação de
apis (abelha) + voro (comer). O mesmo
acontece com a
tordoveia Turdus viscivorus, sendo que neste caso o nome específico resulta de viscum (visco) e voro
(comer) – uma referência ao facto de estes tordos se alimentarem de bagas de visco. É interessante notar que o sufixo
voro também existe em português com o significado de comer, por exemplo nas palavras carnívoro, herbívoro,
omnívoro ou até no termo voraz.
A
gralha-calva, espécie rara em Portugal mas comum na Europa central, toma o nome de Corvus frugilegus – o nome
específico deriva do latim
frux (fruta) + lego (recolher) e significa assim que recolhe fruta, pelo que também neste caso
o nome adoptado diz respeito à dieta desta ave.
O nome genérico do
papa-moscas-cinzento Muscicapa striata, resulta da composição de musca (mosca) + capio
(capturar) – este nome descreve correctamente a forma como esta ave se alimenta – capturando moscas e outros
pequenos insectos em voo. Assim, este nome tem a particularidade curiosa de constituir uma referência simultânea ao
comportamento e à alimentação da ave. O mesmo acontece, aliás, com o
bico-grossudo: com efeito, o nome científico
Coccothraustes deriva do grego e resulta da justaposição de kokkos (caroço) e thrauô (partir em pedaços), sendo o
elemento
–stes um sufixo de acção.

Comportamentos
Para além dos dos casos já citados, há um conjunto relativamente vasto de nomes que fazem referência directa a
determinados comportamentos das aves a que respeitam. Alguns deles são bastante óbvios: é o caso do
melro-azul,
que pode ser visto com frequência pousado no alto de um rochedo ou de um castelo; é geralmente uma ave solitária e
o seu nome científico,
Monticola solitarius, reflecte esse hábito.
Um pouco menos óbvio é o caso da
carriça: o nome científico desta espécie, Troglodytes troglodytes provém do grego
trôglodytês e constitui uma alusão ao troglodita, ou “homem das cavernas” – esta associação resulta do facto de o seu
ninho, muito fechado, parecer uma caverna.
O nome específico do
tentilhão-comum Fringilla coelebs tem um significado curioso: coelebs significa solteiro, ou
celibatário, e este nome constitui uma referência ao hábito desta espécie de se juntar em bandos de aves do mesmo
sexo (no passado pensava-se que só as fêmeas migravam, deixando os machos para trás, que assim ficaram sendo
conhecidos como “os celibatários”).
No grupo das pequenas felosas, encontramos o género
Phylloscopus, que provém também do grego e resulta de
phyllon (folha) + skopos (observador) – neste caso trata-se de uma descrição do comportamento deste grupo de aves,
que passam grande parte do tempo procurando pequenos insectos por entre a folhagem.
Nycticorax, o nome do goraz ou garça-nocturna, tem origem no grego (nyx = noite e korax = corvo); significa literalmente
o “corvo da noite”, uma referência aos seus hábitos nocturnos e à sua vocalização, que faz lembrar um corvídeo.
O
torcicolo Jynx torquilla possui um curioso hábito de rodar o pescoço quando se sente ameaçado e o seu nome
específico resulta precisamente desse facto.

Outras curiosidades
No primeiro artigo desta série foi referido o facto de alguns nomes serem oriundos do grego, ao passo que outros
provêm do latim. Muitos nomes binomiais são mistos, isto é, o nome genérico vem do grego e o específico do latim ou
vice-versa. Contudo, nalguns casos, mais raros, um dos termos tem uma dupla origem. É o que acontece com o nome
genérico da
pega-azul Cyanopica, que resulta de kyano (azul em grego) + pica (pega em latim). Outro caso curioso é o
da
rola-turca Streptopelia decaocto – o nome genérico provém de do grego streptos (que significa colar); já o nome
específico provém de
dekaoctô, que significa dezoito em grego; este termo deverá ser uma onomatopeia para
descrever o canto da ave (coo-COO-coo, que poderia ser também escrito como deka-OOO-ctô); há várias lendas
gregas a explicar a origem deste nome; uma dessas lendas refere o caso de uma criada que trabalhava recebendo
apenas 18 moedas por ano; a rapariga terá rezado aos deuses para que o mundo soubesse dessa crueldade e os
deuses, em resposta ao seu apelo, terão criado uma ave que cantava “
dekaoctô, dekaoctô”.
Embora o grego e o latim estejam na origem da quase totalidade dos nomes científicos das aves, existem alguns
casos de nomes provenientes de outros idiomas. A título de exemplo, pode referir-se o caso da
garça-branca-pequena
Egretta garzetta
, cujo nome genérico deriva do francês Aigrette (nome vernáculo para garça); o seu nome específico
deriva do castelhano ou do italiano garza (o sufixo italiano
–etta tem a função de diminutivo).
Também digno de registo é o caso das escrevedeiras, pertecentes ao género
Emberiza – este termo provém do
alemão helvético
Emmeritz, nome utlizado para designar a escrevedeira-amarela e que terá sido aproveitado para a
designação de outros membros desta família.
Decifrando os nomes científicos
VIII – Nutrição e outras curiosidades

por Gonçalo Elias
Este artigo foi originalmente publicado na revista Pardela, nº 41 (2011)
São devidos agradecimentos à Profª Leonor Santa Bárbara, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade
Nova de Lisboa, pela verificação da grafia e do significado nos nomes latinos e gregos .

Citação recomendada:
Elias, G., 2011.
Decifrando os nomes científicos: VIII - Nutrição e outras curiosidades in avesdeportugal.info [em linha].
Consultado em aaaa.mm.dd. Disponível em: http://artigos.avesdeportugal.info/nomes8
avesdeportugal.info
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