Decifrando os nomes científicos
Este é o penúltimo de uma série de oito artigos dedicados à explicação dos nomes científicos das aves portuguesas.
No presente artigo abordamos um conjunto de nomes de aves com palavras onomatopaicas ou que fazem referência
às vocalizações, bem como diversos nomes que descrevem os padrões de plumagem das aves a que respeitam.

Vocalizações
São inúmeros os nomes científicos que estão relacionados com as capacidades vocais das aves a que se referem –
uns aparecem como onomatopeias e outros sob a forma de um adjectivo descritivo.

Designa-se por onomatopeia um nome que imita um determinado som. Sendo as aves vocais por natureza, não
surpreende que haja alguns nomes que fazem uma referência directa ao som por elas emitido. O caso mais conhecido
é, porventura, o do
cuco-canoro Cuculus canorus, cujo nome genérico constitui uma referência evidente ao som emitido
por esta ave, sob a forma de onomatopeia, o mesmo sucedendo com o nome vulgar (cuco), que aliás foi usado para
designar outras aves da mesma família, mesmo aquelas que cantam de maneira diferente; o nome específico
(
canorus) reforça o carácter vocal desta espécie. Existem outros casos de nome científicos inspirados em sons de aves
como é o caso da
poupa Upupa epops (o canto dos machos é uma sequência de três ou quatro notas u-pu-pu), da
cotovia-arbórea Lullula arborea (o canto desta espécie é composto por uma sequência descendente que faz lembrar lu-
lu-lu-lu-lu-lu) e da
cia Emberiza cia – neste caso o nome específico refere-se ao chamamento, que é composto por
uma nota isolada bastante aguda: siiiii ou siiiia.

Passemos agora aos nomes que contêm outro tipo de descrição das vocalizações. Aqui as soluções adoptadas para
descrever os sons são bastante variadas. Um exemplo simples é o do
guincho-comum Larus ridibundus – o nome
específico deriva do latim
ridere (rir), pelo que o nome científico significa, literalmente, “a gaivota que ri” – uma
referência ao chamamento desta espécie que supostamente faz lembrar uma gargalhada.

Outro exemplo é o da
felosa-assobiadeira Phylloscopus sibilatrix – neste caso o nome específico deriva de sibilare que
em latim significa assobiar, o que se afigura apropriado para descrever o canto desta espécie.

Também o nome científico do
gaio Garrulus glandarius contém uma referência às capacidades vocais da ave; neste
caso essa referência surge no nome genérico
Garrulus, que significa falador – possivelmente uma referência ao facto
de esta espécie ser frequentemente muito barulhenta. Este termo foi igualmente adoptado como nome específico para
o
rolieiro Coracias garrulus.

Um dos nomes mais curiosos é o da
felosa-poliglota Hippolais polyglotta – o termo poliglota, que também existe em
português, significa que domina vários idiomas; neste caso o nome específico constitui uma referência à capacidade
desta felosa de imitar sons de outras espécies, incorporando-os no seu próprio canto. Ainda no grupo das felosas
merecem referência a
felosa-unicolor e a felosa-malhada, ambas classificadas no género Locustella – este nome
genérico deriva de
Locusta (gafanhoto em latim) e constitui uma referência ao facto de o canto destas aves fazer
lembrar o daquele insecto.

O nome genérico do
abetouro, Botaurus, é na verdade uma palavra composta (bo + taurus) que significa “rugir como
um touro” – este termo constitui uma referência directa à vocalização grave emitida por esta ave.

Alguns nomes são menos descritivos e contêm referências em sentido mais figurado. É o caso do
rouxinol-comum
(exemplo já explicado na Pardela 39) e do
tordo-comum, cujo nome específico philomelos significa, literalmente, “que
ama a canção”. Isto pode ser uma referência ao facto de esta ave ser ouvida com frequência a cantar (na Primavera),
mas também poderá ser uma alusão à figura da mitologia grega
Philomela, princesa de Atenas, que segundo a lenda,
foi transformada numa ave.

Padrões de plumagem
Nos artigos anteriores foram apresentados diversos nomes que fazem referência às cores como característica
identificativa. Contudo, como é sabido, muitas aves distinguem-se não tanto pelas cores mas sobretudo por
determinados padrões de plumagem, nomeadamente riscas, barras ou pintas. Este facto foi aproveitado em diversos
nomes científicos.

Por exemplo, certas espécies apresentam uma coloração uniforme, sendo este facto a característica que as distingue.
É o caso do
estorninho-preto Sturnus unicolor. Poderemos interrogar-nos porque motivo não foi usado o termo ater
(preto) para descrever esta espécie. A razão é simples: o estorninho mais comum na Europa é o
estorninho-malhado
Sturnus vulgaris
, o qual se caracteriza por ter pequenas pintas brancas na plumagem; o estorninho-preto diferencia-se
do seu congénere pela ausência de pintas, daí o recurso ao termo unicolor para descrever esta espécie. Na mesma
linha de nomes encontramos o
falaropo de Wilson, cujo nome científico Phalaropus tricolor faz referência ao padrão de
três cores que esta ave apresenta (entre a avifauna africana encontramos igualmente nomes que incluem os termos
bicolor, quadricolor e multicolor).

Outras espécies caracterizam-se por apresentarem um colar (branco ou de outra cor) e o respectivo nome científico faz
referência ao colar, sem indicar a cor. É o caso do
cartaxo-comum Saxicola torquatus – o termo torquatus significa “que
usa um colar”, o que pretende descrever o pequeno colar branco que caracteriza o macho desta espécie; na mesma
linha encontramos os nomes do
melro-de-colar Turdus torquatus e ainda o do papa-moscas-de-meio-colar Ficedula
semitorquata
.

Algumas aves apresentam riscas verticais ou estrias – podemos assim dizer que a sua plumagem é estriada. É o que
acontece com o
papa-moscas-cinzento, cujo nome científico, Muscicapa striata, contém uma referência a esse facto.
Outras espécies apresentam pintas, razão porque se podem denominar pintadas ou maculadas. É o caso do maçarico-
pintado ou
maçarico-maculado Actitis macularia. Um outro caso é o da mobelha-pequena Gavia stellata – neste caso o
nome específico deriva de
stella, que significa estrela em latim e constitui uma referência ao padrão estrelado (pintas)
que a espécie apresenta durante a época de reprodução.

No oitavo e último artigo desta série abordar-se-ão nomes relacionados com o comportamento e com os hábitos
alimentares das aves a que respeitam, sendo ainda feita referência a algumas curiosidades.
Decifrando os nomes científicos
VII –Mestres cantores e plumagens variadas

por Gonçalo Elias
Este artigo foi originalmente publicado na revista Pardela, nº 40 (2011)
São devidos agradecimentos à Profª Leonor Santa Bárbara, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade
Nova de Lisboa, pela verificação da grafia e do significado nos nomes latinos e gregos .

Citação recomendada:
Elias, G., 2011.
Decifrando os nomes científicos: VII - Mestres cantores e plumagens variadas in avesdeportugal.info [em
linha].
Consultado em aaaa.mm.dd. Disponível em: http://artigos.avesdeportugal.info/nomes7
avesdeportugal.info
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