Decifrando os nomes científicos
Este é o sexto artigo da série dedicada aos nomes científicos das aves. No número anterior apresentámos um
conjunto de nomes, oriundos do latim, e que se relacionam com as partes do corpo das aves. Hoje prosseguimos com
este tema, mas desta feita com nomes de raiz grega. Por uma questão de simplicidade, vamos percorrer o corpo das
aves começando na cabeça e terminando nos pés.

Em grego, cabeça diz-se
kephalê. Este termo aparece em várias palavras da língua portuguesa, como cefalópode,
microcefalia ou electroencefalograma. Recordando (ver
artigo número 2) que preto se diz melas, então é fácil entender
que
melanocephalus significa “de-cabeça-preta”. Está assim descodificado o nome científico da gaivota-de-cabeça-
preta, Larus melanocephalus, bem como o da toutinegra-de-cabeça-preta Sylvia melanocephala. Da mesma forma, e
tendo presente que
leukos é o termo grego para branco, então o significado do nome do pato-de-rabo-alçado Oxyura
leucocephala
também se torna óbvio (recorde-se, a este propósito, que em inglês a designação da espécie é White-
headed Duck, o que constitui um descritivo correspondente ao nome científico).

Um dos elementos mais característicos do corpo das aves é o bico. Este adquire diversas formas e tamanhos e por
isso este elemento é frequentemente mencionado nos nomes científicos. Em grego, bico diz-se
rhynchos. Exemplos
de nomes que contêm este elemento são o do
pato-real Anas platyrhynchos (que significa de-bico-plano), o do ganso-
de-bico-curto
Anser brachyrhynchos (brachy = curto) e o do rouxinol-comum Luscinia megarhynchos – o significado
deste último nome é menos óbvio;
mega significa grande, logo megarhynchos significa de-bico-grande; porém, o bico
desta ave não é especialmente longo; assim, o termo
megarhynchos poderá ser uma referência às extraordinárias
qualidades vocais desta ave, cujo canto é particularmente melodioso e variado.

Passando para o tronco, é de referir o termo costas / dorso, que em grego se escreve
nôton. São vários os nomes de
aves que incluem este elemento. Um dos casos em que isto acontece é o do
pilrito-de-colete Calidris melanotos
(=melano + noton), embora neste caso o nome adoptado não constitua a melhor descrição desta ave, que não tem as
costas pretas. Outro exemplo vem de África austral, com o bico-de-lacre-de-faces-pretas
Estrilda erythronotos, em que o
nome específico resulta de
erythro + noton (=dorso vermelho), uma alusão ao uropígio avermelhado.

Alguns nomes fazem referência às asas (=
pteron) – é o caso do nome científico Chlidonias leucopterus (= leukos +
pteros) que descreve correctamente a
gaivina-d’asa-branca. Existem outros casos que fazem referência ao elemento
“asa”, como acontece com a Freira
Pterodroma madeira (ver o quarto artigo desta série).

Continuando a percorrer o corpo de uma ave, a plumagem termina na cauda. Este é um dos elementos mais
característicos e diferenciadores, devido à diversidade de formas e cores existentes, não surpreendendo por isso que
haja muitos nomes que fazem referência à forma ou à cor da cauda. O termo grego para a cauda é
oura. Exemplos de
nomes que incluem este termo são: o do
chasco-preto Oenanthe leucura (=leukos + oura), uma referência à cauda
branca deste pequeno turdídeo; o dos rabirruivos
Phoenicurus sp. (= phoinix + ourus, sendo que neste caso ourus é
uma versão latinizada de
oura, transposta para o masculino), uma referência evidente à cauda cor-de-fogo.

Chegamos por fim ao pé = pous. São vários os nomes que fazem referência à cor das patas / pés. À cabeça temos a
galinha-d’água Gallinula chloropus. Neste caso o nome específico resulta de chloros + pous (= verde + pé), pelo que o
nome científico, traduzido literalmente, significa, “galinha-de-pés-verdes”. Outros nomes que fazem referência à cor dos
pés são o do
perna-vermelha-escuro Tringa erythropus, o do maçarico-bique-bique Tringa ochropus e o do maçarico-
galego Numenius phaeopus. Um caso curioso é o do ostraceiro Haematopus ostralegus – o nome genérico desta
espécie resulta de
haimatos (sangue) + pous (pé), pelo que significa pé cor-de-sangue, numa alusão ao tom vermelho
dos membros inferiores.
Merece particular destaque o género
Apus (andorinhões). O nome Apus resulta de A+pous, sendo que o sufixo “a-“ é
um sufixo de negação, pelo que
Apus significa “sem patas” (uma referência figurada às patas muito curtas destas
aves). Note-se que este uso da partícula “a-” como sufixo de negação acontece em diversas palavras da língua
portuguesa, como atípico, anormal, acéfalo, átono ou assíncrono.

Os pés das aves são compostos por quatro dedos. Em grego, dedo escreve-se
daktylos. Acontece que o número de
dedos e o seu aspecto pode variar e este é, pois, um elemento descritivo bastante útil em aves que apresentem
determinadas particularidades. A
gaivota-tridáctila, por exemplo, distingue-se das restantes gaivotas pelo facto de não
ter quatro dedos, mas sim três. Esta particularidade reflecte-se no seu nome científico:
Rissa tridactyla. Duas outras
espécies caracterizam-se pelos seus dedos curtos (relativamente às suas congéneres) e os seus nomes científicos
reflectem isso mesmo – é o caso da
trepadeira-comum Certhia brachydactyla e da calhandrinha-comum Calandrella
brachydactyla
(em que brachy = curto, conforme acima referido).

No quadro 1 apresenta-se, de forma resumida, os principais termos gregos referentes a partes do corpo das aves que
são usados em nomes científicos – cada um dos termos apresentados é acompanhado de um exemplo.
Decifrando os nomes científicos
VI – Com cabeça, tronco e membros (cont.)

por Gonçalo Elias
Este artigo foi originalmente publicado na revista Pardela, nº 39 (2010)
São devidos agradecimentos à Profª Leonor Santa Bárbara, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade
Nova de Lisboa, pela verificação da grafia e do significado nos nomes latinos e gregos .

Citação recomendada:
Elias, G., 2011.
Decifrando os nomes científicos: VI - Com cabeça, tronco e membros (cont.) in avesdeportugal.info [em linha].
Consultado em aaaa.mm.dd. Disponível em: http://artigos.avesdeportugal.info/nomes6
avesdeportugal.info
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