Decifrando os nomes científicos
Este é o quarto artigo da série dedicada aos nomes científicos. Desta vez apresentamos um conjunto de nomes que
não descrevem directamente as aves a que respeitam, mas sim o habitat por elas frequentado.
Devido às semelhanças entre o latim e o português, há diversos nomes relacionados com habitat cujo significado é
quase intuitivo. São exemplos: a petinha-dos-campos Anthus campestris, a petinha-dos-prados Anthus pratensis, a
laverca Alauda arvensis, o chasco-do-deserto
Oenanthe deserti e a cotovia-arbórea Lullula arborea. Também no caso
dos meios mais humanizados, há aves cujos nomes contêm, de alguma forma, indicações mais ou menos evidentes
sobre os locais frequentados, são o pardal-comum
Passer domesticus, a andorinha-das-chaminés Hirundo rustica, a
andorinha-dos-beirais
Delichon urbicum.
Seguidamente vamos debruçar-nos com mais detalhes sobre outros tipos de habitat.


Meios rochosos e montanhosos
São várias as espécies cujo nome científico faz referência a meios rochosos ou de altitude. O mais evidente é o da
andorinha-das-rochas
Ptyonoprogne rupestris e outro caso notório é o pardal-montês Passer montanus (o nome desta
espécie significa literalmente “pardal-do-monte”) – estes dois casos são relativamente fáceis de entender. Existem,
contudo, diversos outros casos, menos evidentes, que também fazem referência a este tipo de habitat. É o caso do
vulgar cartaxo-comum
Saxicola torquatus. Com efeito, o termo Saxicola provém do latim e resulta da aglutinação de
saxum (pedra) e colo (habitar). Idêntica etimologia tem o nome do melro-azul
Monticola solitarius – neste caso, o termo
monticola significa que habita nos montes. O seu congénere melro-das-rochas tem o nome específico
saxatilis, que
também deriva de saxum e significa que a ave habita nas rochas; este termo encontra equivalente no termo português
“saxátil” (esta palavra pouco usual refere-se a meios rochosos). Uma outra espécie associada a meios rochosos é o
pardal-francês
Petronia petronia. O nome cientifico desta espécie deriva do latim petrum, que significa rocha.
No caso dos nomes oriundos do grego, o significado é muito menos óbvio. Veja-se o caso da trepadeira-dos-muros
Tichodroma muraria. Se o termo muraria, originário do latim, sugere muro, o mesmo não se pode dizer de Tichodroma,
que provém do grego e resulta da justaposição de
teikhos (este termo pode significar rocha, muro, parede e, ainda,
muralha) +
dromos (correr), ou seja, significa aquele que corre sobre os muros. É interessante notar que a palavra
dromos surge amiúde na língua portuguesa sob a forma de sufixo, nomeadamente em recintos desportivos como
autódromo, kartódromo, hipódromo, aeródromo, etc.


Meios aquáticos e palustres
Tal como acontece com os meios rochosos, há diversos nomes de aves ligadas ao meio aquático cuja tradução é
intuitiva: à cabeça temos o frango-d’água
Rallus aquaticus.

Entre os pequenos passeriformes que frequentam a vegetação palustre surgem também diversos nomes associados
a este habitat. Tendo presentes os nomes científicos da cana
Arundo donax e do junco Scirpus sp. (ambos
provenientes do latim), facilmente se depreende o significado dos nomes científicos dos rouxinóis pequeno e grande
dos caniços:
Acrocephalus scirpaceus e A. arundinaceus (sendo que o sufixo “-ceus" significa que “pertence a”). No
caso do junco, é também relevante o nome grego skhoinos, que foi usado para o nome científico da felosa-dos-juncos
A. schoenobaenus (sendo que o elemento baenos significa caminhar, ou seja schoenobaenos representa aquele que
caminha sobre os juncos). Outras espécies cujos nomes fazem referência aos meios palustres ou à vegetação que os
compõe são a felosa-aquática
Acrocephalus paludicola (a que habita nos pauis) e a escrevedeira-dos-caniços
Emberiza schoeniclus. Por outro lado, se tivermos em conta que ripa significa margem, então o significado do nome da
andorinha-das-barreiras
Riparia riparia torna-se mais evidente.

No caso da fuinha-dos-juncos
Cisticola juncidis, a associação do nome especifico juncidis aos juncais é mais ou
menos óbvia, mas o nome genérico
Cisticola pode ser menos evidente. Recordando que o termo cola se refere a
habitar, e tendo presente que
Cisti significa um cesto feito de raminhos, então Cisticola é aquela que habita o cesto –
esta designação refere-se à forma do ninho desta ave, que é implantado no solo.

Um nome genérico que também é associado a meios aquáticos e estuarinos é limícola. Este termo deriva do latim
limus e significa lama. Assim, limícola (em latim limicola) significa que habita nas lamas, o que descreve
correctamente os hábitos da maioria dos caradriformes. Há mais espécies cujo nome científico faz referência às
lamas, como o maçarico-de-bico-direito Limosa limosa (este nome significa que pertence às lamas) e os maçaricos-
escolopáceos Limnodromus sp. (neste caso o nome significa que corre sobre a lama). Por último, refira-se a perdiz-do-
mar, cujo nome científico pratincola significa que habita nos prados (pratum).


Meios marinhos e oceânicos
Debrucemo-nos agora sobre o grupo das aves marinhas. Neste grupo abundam os nomes que fazem referência ao
meio marinho ou oceânico. Convirá aqui notar que o elemento
Hydro provém do grego (hudor) e significa água; pelagos
também tem origem grega e significa o mar. Assim, o nome do painho-de-ventre-branco
Pelagodroma marina significa
que corre no mar (recorde-se que
dromos significa correr e que, quando usado como sufixo, designa um local onde se
corre) e o nome específico de
Hydrobates pelagicus também se refere ao mar, sendo que o nome genérico Hydrobates
significa o que caminha sobre a água. Quanto ao termo oceano, deriva igualmente do grego
Okeanos (figura mitológica
que designava o rio que envolve a terra) – este termo serviu de base a diversos nomes de pequenas aves marinhas,
como
Oceanodroma leucorhoa ou Oceanites oceanicus. Menos evidente é o significado no nome genérico da Freira
Pterodroma madeira. Considerando que ptero provém do grego e significa asa, uma interpretação possível para este
nome será “ave que voa rapidamente”, possivelmente uma referência à sua maneira de voar.

Outras aves cujo nome científico faz referência ao habitat marinho são o gaivotão
Larus marinus, o pilrito-escuro
Calidris maritima e a rola-do-mar Arenaria interpres – neste último caso, o nome Arenaria deriva do termo latino Arena
que significa areia.
Decifrando os nomes científicos
IV - Por montes, vales e oceanos

por Gonçalo Elias
Este artigo foi originalmente publicado na revista Pardela, nº 37 (2010)
São devidos agradecimentos à Profª Leonor Santa Bárbara, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade
Nova de Lisboa, pela verificação da grafia e do significado nos nomes latinos e gregos .

Citação recomendada:
Elias, G., 2011.
Decifrando os nomes científicos: IV - Gentílicos e Tautónimos in avesdeportugal.info [em linha].
Consultado em aaaa.mm.dd. Disponível em: http://artigos.avesdeportugal.info/nomes4
avesdeportugal.info
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