Decifrando os nomes científicos
Este é o terceiro artigo dedicado ao tema dos nomes científicos. No primeiro número falámos do tema dos nomes
científicos e da sua origem. No segundo número abordámos a temática das cores, identificando aquelas que vêm do
latim e as que têm origem no grego.
No texto de hoje falaremos de dois importantes conjuntos de nomes que são utilizados com frequência na
nomenclatura científica das aves: os gentílicos e os tautónimos.

Gentílicos
O termo gentílico designa um indivíduo de acordo com o seu local de origem – pode relacionar-se com um país, uma
região, uma província, uma cidade ou outro tipo de local. Por exemplo, lisboeta designa um natural de Lisboa;
portuense designa um natural do Porto; nabantino um natural de Tomar. E por aí adiante.

Se percorrermos os gentílicos existentes em língua portuguesa verificaremos que muitos deles terminam com o sufixo
“-ense”. São exemplos: bracarense, vimaranense, viseense, aveirense, conimbricense, albicastrense, eborense,
farense. Este tipo de designação surge amiúde em nomes de associações desportivas e clubes de futebol, cuja
terminação corresponde ao gentílico da localização a que pertencem, como sejam o Clube de Futebol “Os Belenenses”
(de Belém), o Portimonense (de Portimão) ou o Campomaiorense (de Campo Maior).

O equivalente latino do sufixo “-ense” escreve-se “-ensis”, surgindo esta forma nalguns nomes científicos cujo nome
específico pretende designar um local ou uma região. De entre as aves que ocorrem em Portugal, o exemplo mais
evidente é o do
pardal-espanhol Passer hispaniolensis. Literalmente significa “o pardal que é de Espanha”. Este nome
foi atribuído porque foi em Espanha que esta espécie foi identificada pela primeira vez. Outras espécies que ocorrem
em Portugal e que têm gentílicos no nome específico são a
gaivota-de-bico-riscado ou gaivota do Delaware (Larus
delawarensis
) – oriunda do estado norte-americano com o mesmo nome – e o garajau-comum (Sterna sandvicensis) –
denominado com base na localidade inglesa de Sandwich, Kent (e não nas Ilhas Sandwich como por vezes é referido).

O uso de gentílicos torna-se particularmente útil no caso das espécies insulares, pois a sua distribuição restrita faz
com que o recurso ao gentílico se afigure particularmente útil. No caso da avifauna portuguesa, encontramos o caso do
bis-bis (
Regulus madeirensis), pequena ave insectívora endémica da Madeira.

Os gentílicos surgem também, com alguma frequência, para designar subespécies. Alguns exemplos podem ser
encontrados entre nós, por exemplo a subespécie açoriana de
melro (Turdus merula azorensis) e a subespécie de
peneireiro-vulgar que se observa na Madeira (Falco tinnunculus canariensis) – neste caso a subespécie é a mesma
que ocorre nas ilhas Canárias, o que explica o nome subespecífico.

Note-se, contudo, que o sufixo “-ensis” também é, por vezes, usado, para designar um habitat, isto é, que uma espécie
ocorre num dado meio. São exemplos a petinha-dos-prados
Anthus pratensis, em que “pratensis” significa que
pertence ao prado.

Embora o sufixo “-ense” seja o mais frequente, não é o único que é usado em português corrente para designar
regiões geográficas. Alguns exemplos de gentílicos em língua portuguesa com outras terminações são: ibérico,
açoreano, barranquenho, brigantino, lusitano, alentejano. Da mesma forma, encontramos frequentemente nomes
científicos de aves cujo nome específico, ainda que não termine em “-ensis”, designa um local ou uma região. Entre
exemplos que dizem respeito à fauna portuguesa refiram-se o chasco-ruivo (Oenanthe hispanica) e a felosa-ibérica
(Phylloscopus ibericus). Também nestes casos os gentílicos surgem frequentemente para designar subespécies,
como por exemplo Columba palumbus azoricus (subespécie açoriana de pombo-torcaz), Garrulus glandarius
lusitanicus (subespécie portuguesa de gaio) e a originalíssima Regulus regulus sancta-mariae (subespécie de
estrelinha-de-poupa que é endémica da ilha açoriana de Santa Maria).

Tautónimos
Um tautónimo é um nome dobrado, ou seja, quando os nomes genérico e específico são iguais temos um tautónimo.
São exemplos de tautónimos:
Buteo buteo, Milvus milvus, Ciconia ciconia, Apus apus, Bubo bubo, Riparia riparia,
Carduelis carduelis
.

Uma curiosidade que muita gente desconhece é o facto de os tautónimos resultarem, habitualmente, de uma alteração
ao nome original. Ou seja, quando temos um tautónimo, é quase certo que inicialmente a espécie tinha sido colocada
noutro género, geralmente o género cujo nome é semelhante ao da família a que pertence. Posteriormente, ao
estabelecer-se que a espécie merecia estar num género próprio, o nome genérico foi alterado, usando-se, para o
efeito, o nome específico.
No quadro seguinte indica-se o nome originalmente dado por Lineu para os exemplos acima apresentados:

Analisando os tautónimos à lupa, verificamos que um tautónimo não é um nome muito descritivo. Com efeito, por
serem resultado de alterações taxonómicas, os tautónimos constituem muitas vezes uma descrição mais pobre da
espécie a que respeitam.

Por exemplo, se tivermos em atenção que
Apus vem do grego e significa sem patas, então o nome originalmente dado
por Lineu, “
Hirundo apus” significa literalmente andorinha-sem-patas, o que de alguma forma constitui uma descrição
da espécie (embora hoje se saiba que não é uma andorinha). Já o tautónimo “
Apus apus” significa “sem patas sem
patas”, o que não faz muito sentido em termos descritivos.
Decifrando os nomes científicos
III - Gentílicos e tautónimos

por Gonçalo Elias
Este artigo foi originalmente publicado na revista Pardela, nº 36 (2009)
São devidos agradecimentos à Profª Leonor Santa Bárbara, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade
Nova de Lisboa, pela verificação da grafia e do significado nos nomes latinos e gregos .

Citação recomendada:
Elias, G., 2011.
Decifrando os nomes científicos: III - Gentílicos e Tautónimos in avesdeportugal.info [em linha].
Consultado em aaaa.mm.dd. Disponível em: http://artigos.avesdeportugal.info/nomes3
avesdeportugal.info
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