Decifrando os nomes científicos
Quem se inicia na observação de aves, rapidamente se apercebe que muitos observadores mais experimentados
preferem designar as aves pelos chamados nomes científicos, em detrimento dos nomes portugueses ou vernáculos.
Embora esta terminologia faça confusão numa fase inicial e possa mesmo intimidar, a verdade é que a pouco e pouco
mais pessoas se vão habituando a utilizá-la. Como dizia Fernando Pessoa, primeiro estranha-se e depois entranha-se.
Mas surge um problema. Sendo o latim uma língua morta, que quase ninguém sabe falar e pouca gente entende, a
única forma de aprender a utilizar os nomes científicos consiste em decorá-los ou, quiçá, em “empiná-los”. Este
método é pouco prático e fica sujeito a erros de aprendizagem. Se por um lado é verdade que alguns nomes cujo
significado é mais ou menos intuitivo (como por exemplo
Cuculus canorus ou Picus viridis), há outros que são
absolutamente incompreensíveis (por exemplo
Acrocephalus schoenobaenus ou Neophron percnopterus), não se
vislumbrando qualquer significado que permita associar as características da ave aos termos que compõem o nome.
A fim de ajudar todos os interessados a ultrapassar este obstáculo, foi criada esta nova secção da Pardela que tem
como principal objectivo o de ajudar a descodificar esta linguagem. Não se pretende apresentar uma mera lista de
traduções e significados, mas sim fornecer as bases necessárias à boa compreensão dos nomes científicos, evitando
desta forma que os nomes tenham de ser decorados (“empinados”), pois da boa compreensão resulta a melhor
assimilação e a correcta utilização.

Os nomes serão abordados tematicamente, isto é, em cada artigo serão tratados nomes que pertencem à mesma
família de nomes.

Antes, porém, de analisarmos o tema em detalhe, é importante referir alguns aspectos mais gerais sobre a origem dos
nomes científicos.

O primeiro aspecto a ter em conta é que o sistema em vigor é o sistema binomial, que foi criado pelo naturalista sueco
Carolus Linnaeus (Lineu) em 1758. Cada nome é assim composto por duas palavras, sendo que a primeira palavra
designa o género (sendo também chamado nome genérico) e a segunda a espécie (chama-se também nome
específico). Assim, por exemplo, no caso da andorinha-das-chaminés, o nome científico é
Hirundo rustica, sendo que
Hirundo designa o género e rustica indica a espécie.

Existe uma ideia generalizada de que os nomes científicos provêm do latim (ideia esta que é enfatizada pela expressão
“Latin names” que é utilizada em língua inglesa para designar esta terminologia). Contudo, cerca de metade dos
nomes científicos usados para denominar as espécies de aves provêm, na verdade, do grego. Este aspecto é muito
importante para a boa compreensão de muitos nomes, como veremos adiante.

Poderia pensar-se, com base nesta ideia, que alguns nomes são então em latim e outros em grego. Contudo, a
situação é mais complexa. Em muitos casos, o nome científico é composto por duas palavras no mesmo idioma (latim
ou grego), contudo há outros em que o nome genérico é em latim e o nome específico é em grego, ou vice-versa.

Alguns exemplos:

Há ainda alguns casos, menos frequentes, em que uma das palavras (género ou espécie) é obtida por justaposição
de elementos provenientes de grego e de latim. Estes casos serão analisados mais tarde.

Para além dos elementos de origem grega ou latina, surgem também numerosos nomes latizinados, cuja grafia,
porém, nada tem a ver com o latim genuíno. Os casos mais frequentes envolvem nomes de naturalistas famosos, que
se decidiu homenagear atribuindo-lhes nomes de aves. Nestes casos, mantém-se a grafia na língua de origem,
adicionando-se o genitivo. Aqui ficam alguns exemplos:

  • Calidris temminckii (pilrito de Temminck) – em homenagem a Coenraad Jacob Temminck (1778-1858), que foi
    um zoologista e aristocrata holandês. A grafia com “ck” corresponde ao nome do naturalista em causa e não
    aparece em latim.
  • Larus audouinii (gaivota de Audouin) – em homenagem a Jean Victor Audouin ou simplesmente Victor Audouin
    (1797 –1841), naturalista, entomologista, ornitólogo e médico francês.
  • Gyps rueppellii (Abutre de Rüppell) - Wilhelm Peter Eduard Simon Rüppell (1794 - 1884) foi um naturalista e
    explorador alemão.
  • Falco naumanni (Peneireiro-das-torres) – em homenagem a Johann Friedrich Naumann (1780 –1857), cientista
    e editor alemão que é muitas vezes considerado o fundador da ornitologia científica na Europa.

Como se pode ver pelos exemplos acima, quando se homenageiam indivíduos do sexo masculino, o nome específico
termina geralmente em “i” ou “ii”. Isto significa que quando encontramos um nome com esta terminação, facilmente
podemos concluir que esse nome homenageia alguém (por exemplo
Calidris bairdii, Calidris mauri, Larus sabini,
Larus genei, Sterna forsteri, Sterna dougallii, Porphyrula alleni, Cettia cetti, Phylloscopus bonelli, Emberiza pallasi
para todos estes nomes uma pesquisa na web facilmente permitirá obter mais informação). Contudo, há excepções a
esta regra das terminações em “i”, como por exemplo
Oenanthe deserti (chasco-do-deserto), em que o termo “deserti”
se aplica ao habitat frequentado por esta ave, sem evocar nenhuma personalidade.

Refira-se ainda que, para indivíduos do sexo feminino, a terminação do nome específico é em “ae”. Os dois casos
mais conhecidos a nível europeu são:
  • Falco eleonorae (Falcão-da-rainha) – em homenagem a Eleanor (Eleonora em italiano: 1347–1404), uma juíza
    de Arborea (Sardenha), que a tradição defende ter decretado a protecção das aves de rapina naquela ilha.
  • Chrysolophus amherstiae (faisão de Lady Amherst) – em homenagem a Sarah Countess Amherst, mulher de
    William Pitt Amherst, Governor geral de Bengala, que foi responsável pelo envio do primeiro espécime deste
    faisão para Londres em 1828.

No próximo artigo abordaremos um tema que está presente em inúmeros nomes de aves: as cores. Aprenderemos a
distinguir alguns nomes que vêm do latim de outros equivalentes com origem no grego. E ficaremos a saber um pouco
mais sobre as diferenças entre os nomes masculinos e os femininos.
Decifrando os nomes científicos
I - Introdução

por Gonçalo Elias
Este artigo foi originalmente publicado na revista Pardela, nº 34 (2009)
São devidos agradecimentos à Profª Leonor Santa Bárbara, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade
Nova de Lisboa, pela verificação da grafia e do significado nos nomes latinos e gregos .

Citação recomendada:
Elias, G., 2011.
Decifrando os nomes científicos: I - Introdução in avesdeportugal.info [em linha].
Consultado em aaaa.mm.dd. Disponível em: http://artigos.avesdeportugal.info/nomes1
avesdeportugal.info
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